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| October 20, 2019

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A bicicleta e a acessibilidade

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Competidores do Tour de France 2013

+Competidores do Tour de France 2013 Crédito: Divulgação/Getty Images

Os manifestantes que invadiram as nossas capitais o fizeram movidos por alguns  gatilhos. E a falta de acessibilidade é um deles
A edição deste ano do Tour de France, a principal competição de ciclismo do  mundo, tinha tudo para estar ameaçada após Lance Armstrong — ciclista que venceu  a prova em sete ocasiões entre 1999 e 2005, inclusive após superar um câncer  testicular — ter sido banido do esporte em 2012 ao admitir que só havia  conquistado a façanha porque fazia uso de doping. No entanto, a prova que  terminou neste domingo 21, além de ser a de número 100, também manteve o seu  prestígio e sucesso. A explicação mais plausível para isso está em dois fatores  básicos: nem todos os atletas compactuam com a postura de Armstrong e,  principalmente, o ciclismo é o esporte mais acessível e democrático que  existe.

Ao longo do percurso da Volta da França, os atletas são assediados tanto por  fãs do esporte quanto por moradores das cidades por onde o pelotão passa. Muitas  dessas pessoas chegam a atrapalhar a prova causando acidentes para poder tocar  nos atletas ou aparecer fantasiados na televisão. São essas pequenas histórias  que acabaram ao longo deste mais de um século de competição fazendo a sua  mística. O fato de ser uma prova aberta, gratuita para o público e cujo contato  entre o simples cidadão e competidores de elite é absolutamente aberto são  elementos fundamentais para que continue sendo legítima a despeito da falta de  escrúpulo de alguns.

A própria origem do Tour de France é curiosa. A prova foi criada em 1903  (durante os dez anos de duração somada da 1a e 2a Guerra Mundial não houve a  competição) pelo jornal L’Auto, antecessor do L’Équipe, o principal diário  esportivo da França, para aumentar sua circulação que havia sofrido queda desde  o surgimento do concorrente Le Vélo. A competição foi a primeira de rua do  ciclismo mundial e tinha apenas seis etapas contra as atuais 21 e 3.404  quilômetros. Após o término da primeira edição, a circulação de L’Auto aumentou  em seis vezes forçando o recém-lançado Le Vélo a encerrar sua breve carreira.  Era um mundo totalmente diferente no qual os jornais eram os únicos veículos de  comunicação existente. O protagonismo dessa mídia e a sua força a ponto de criar  algo que se tornou um marco histórico no calendário mundial do esporte chama a  atenção hoje quando os jornais sofrem diversos tipos de concorrências e estão em  trajetória descendente.

O exemplo do Tour de France e o fato de ter ocorrido nas últimas semanas é  emblemático. As manifestações que tomam conta do País há pouco mais de um mês  têm como um de seus componentes o questionamento do poder, seja econômico ou  político. Símbolos desse poder estabelecido estão sendo literalmente agredidos e  depredados. Desde prédios que abrigam órgãos e instituições em Brasília, lojas  de grifes famosas à sede da Rede Globo e a casa do governador. Embora o uso da  violência faça parte da agenda de um grupo específico que não representa o todo,  encontrou ressonância no movimento que começou com uma pauta objetiva e pontual:  a mobilidade urbana.

A mudança cultural das últimas décadas e o fato de a bicicleta ter se tornado  um símbolo de estilo de vida com benefícios ecológicos e econômicos para muitos  dos habitantes de inúmeras cidades do planeta também chama a atenção na relação  entre o que representa o Tour de France e o que acontece hoje nas ruas  brasileiras. Os manifestantes que invadiram as nossas capitais e decidiram  agredir os distantes símbolos de poder têm alguns gatilhos para fazer isso. E a  falta de acessibilidade (a transporte público de qualidade, saúde, educação e  cidadania) é um deles. Um observador atento a qualquer capital onde a cidadania  é respeitada vai ver que existe um elemento básico que faz parte da paisagem  urbana e da vida de seus habitantes: a frugal bicicleta.Por: Meio e Mensagem

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